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Maldizer a vida com um secreto gostinho de quem se arrebentou mas gostou!



Sobra espaço, a estranha sensação de espaço vazio…
Sobra espaço entre estar, querer, ficar, ter, partir, sentir, calar, viver…
Entre as paredes que sabem tudo,
Entre a pele e o corpo,
Entre o sorriso e a lágrima,
Entre a existência e o ser,
Entre a luz e a sombra,
Entre a castanha e a neve,
Entre a tortura e a doçura,
Entre a demora e a caminhada,
Entre a chegada e o nunca mais,
Entre a dúvida e o amor,
Entre o carinho e a estrada,
Entre o arrepio e o cheiro,
Entre o fogo e o fogo,
Entre a alma e a existência,
Entre o beijo delirante e a verdade,
Entre a sinceridade e a vontade,
Entre o soluço e o choro,
Entre o muito e o tanto,
Entre a esteira da vida e a vontade de viver,
Entre a colina e o lado errado,
Entre a melodia e a voz rouca.
Entre a gargalhada e a orelha,
Entre a espada e a parede,
Entre mim e a roupa que visto…

E queima com a crueldade do abandono, sinto o corpo triste e a chama da vida abandonou-me, fugiu pela janela aberta, com medo de ser exaurida pelo bafo gelado que me cedeste num copo de pé alto, com requinte camuflado; bebi-lhe a angústia interior, sem perceber que estava a morrer ao segundo.
Nada é perdido, apenas vivido… sentido com as penas de criança e as angústias de adulto.
Quero apenas ceder o corpo à tormenta e entregar a alma à liberdade, que venham os cavaleiros da noite, caminhantes em pés descalços, mostrar-me o caminho da perdição, o que não tem retorno, o que simplesmente me leva para a podridão do mundo.
Quero sentir o que nunca senti, quero sentir a dor, desgarrar a carne da existência e perder-me em mares de sangue, quero que me doa até à última gota de sangue vertida.
Que venham as brumas, as catástrofes e as bruxas, em vassouras! Que se assanhem os gatos pretos, no meu caminho e grasnem os corvos ao meu ouvido, que me partam os mil raios da conjuntura celeste, que me abram em fenda profunda e insana, por todo o meu corpo, de alto abaixo, que se prendam pernas, mãos e que as ideias se encham de lodo, e que a língua não ande, nem mexa, simplesmente quede a sentir o fel, que o peso da terra paire sobre mim, em ameaça e pressão... POIS que venham! Tudo e todos, com as fúrias de bestas mitológicas e medos urbanos, que tanto nos apoquentam no dia-a-dia!
Que desabe o mundo, e me cravem as águias esfomeadas,as suas garras na carne desprotegida, que me devorem os lobos na noite, que me deixem cair na água gelada!….
Quero pender a cabeça de cansaço, para o lado e saber que não voltará a doer tanto, nem nada poderá doer mais.

A noite não estava a render nada, ela não percebia porque, ainda novata, naquelas andanças. Estava acompanhada de uma mais experiente, que a iniciava nesta vida a troco de nada, "porque sei o que é andar sozinha nestas ruas, à noite. Só há putas e mafiosos!... Deixa lá, não me deves nada, quem me dera que o tivessem feito por mim" concluía com um olhar amargo, que podia dizer muito mais, mas parecia não possuir palavras para descrever as suas vivências. Ou isso, ou sentimento de culpa…
- Deixa lá cachopa, com essa cara laroca, em menos de uma hora já te estão a chamar, mas atenção, sê prudente. Se vires que o gajo tem um olhar maníaco, tu vem-te embora!...
Estes alertas podiam parecer muito úteis, mas o que é certo é que não sabia o que era um ar maníaco. Tinha a inocência no corpo, como quem tem sangue; vendia o corpo, porque acabou fugida de um colégio interno, onde foi parar por ter sido apanhada com um cigarro na boca, no entanto o seu sentimento de culpa não lhe permitia a resignação para ficar trancada que nem uma marginal; uma noite, saltou da janela, simplesmente, enchendo-se de arranhões e sem olhar para trás, da família, nada podia saber, estava muito longe e só se lembra de ter andado muito. Passados dias de fome, frio e dormidas ao relento, foi parar a uma pequena cidade e aí foi amparada por uma puta samaritana...
- Anda lá boneca, nesta vida ninguém nos dá nada, temos que fazer por ela!
Apesar dos seus modos pouco carinhosos, era atenta às necessidades da pequena meretriz, deixou-a repousar durante muito tempo, alimentou-a e deu-lhe cama e roupas para o oficio.
- Elah! Se te serve a ti, quer dizer que a idade ainda não me apanhou! - Riu à gargalhada, mas percebendo que ria sozinha, acrescentou - Tenho cuidado com o que como... E protejo-me sempre.
Depois explicou-lhe como funcionavam as coisas, e a pequena puta apenas absorvia informação, falava pouco, mas lá acabou por explicar que nunca tinha estado com nenhum homem.
- A sério?! Então és um pequeno tesouro!... Vamos vender a tua virgindade! - Ao ver o ar desesperado da pequena puta, concluiu - Não te preocupes, não te vai servir para nada, e eu estou cá para te dar umas dicas, para não doer tanto. Anda daí.
E foram. Até um bordel, porque na rua os leilões são complicados... e mal pagos. No entanto ali, havia comissões para a casa, para a patroa e para a puta experiente, que levou a pequena puta. No fim, para a última sobrou apenas o tremor no corpo, de medo e horror, e as lágrimas derramadas. Então era isto o tal pecado, se doía, porque caíam nele?
Não houve tempo para respostas, na noite seguinte foi para a rua com a puta experiente, e começou a treinar a aliciação, insinuando as pernas compridas, desnudas, o traseiro redondo coberto com uma mini-saia descarada, e um decote profundo "porque um bom decote faz toda a diferença" dizia-lhe a puta experiente todas as noites. Começou a ter dinheiro, finalmente, e em breve partiria do cafofo da puta experiente, esse era o seu objectivo, como tal precisava de clientes, tivessem eles olhar maníaco, ou não, fosse o que isso fosse.
Estava impaciente, e mal habituada, pois de facto a pequena puta facturava bastante por noite, o seu ar inocente e jovem cativava muitos clientes.
Andava de um lado para o outro, num andar sólido, porém leve, nuns saltos altos vermelhos, uma mini preta e um trapinho a segurar-lhe as mamas firmes, cabelo apanhado, era mais prático e mostrava o seu rosto redondo, de menina, que tantos clientes chamava. Era um felino da noite.
- Não vale a pena desesperar... - Dizia a outra, fumando um cigarro...
Até que um carro se aproxima, um topo de gama, com vidros fumados, baixando um pouco o vidro da janela do pendura, chamou a felina, tocaram informação e ela entrou.
- Não te esqueças da protecção!
Gritou-lhe a puta experiente ao longe.
(Continua)

Quero ser gigante para ter passos maiores que todos os outros,
ou ser uma tesoura para rasgar horizontes,
posso também ser uma cor, violeta,
para pintar o mundo, viver no céu, rir às gargalhadas e ser feliz;
quero ser vento, para não caber na mão de ninguém,
ou água para dependerem de mim;
quero ser ilusão, ou amor,
para poder ri-me nas costas dos outros,
ou vê-los a fingir que amam, desgastados com o tempo e com as inseguranças,
ou saudades, lágrimas falsas;
posso ser ave, para fugir;
posso ser mentira, para viver;
quero ser grande e poder foder,
porque não existe nada melhor.

