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domingo, outubro 25, 2009

Quando um fio nos sustenta


Fiquei desnorteada, a energia abandonou-me, o corpo cedeu… primeiro os joelhos e depois o resto… cai. A minha cara molhada ensopou o chão de madeira, com falta de cera. A dor foi tão grande e irreconhecível… senti-me nauseada, com o cheiro das lágrimas no soalho, mas não consegui erguer-me… a minha mão, quieta, frente aos meus olhos, e eu sem a conseguir mexer… a impotência apoderou-se de mim subitamente, e a dor foi alastrando devagar e venenosa; na boca senti o sabor da solidão, na garganta tinha um pedaço do meu coração, em chamas, o choro de mulher, converteu-se em choro de menina, tão perdida… nunca consegui imaginar o que me estava a acontecer, e abandonei o meu corpo angustiado, parti… Assim fiquei, na tarde em que te perdi.
Dissolvi-me no ar, nas paredes, no chão. Mergulhei na areia da existência do tempo, contei os seus grãos, apenas com a imagem de nada, e o bolso vazio. Viver até este momento de pura realidade, voltar a unir de mim o que dispersei, foi o caminho mais duro de sempre; viver numa solidão ensurdecedora, é como ter um ferro quente nas costas a todo o instante, viver a enganar a vontade de morrer é simplesmente degradante, valeu a pena chegar até aqui e perceber que vale a pena viver, mas com uma realidade diferente, uma vida diferente, com outras paredes, com vontade de respirar, mesmo que ainda carregue parte do meu coração incandescente, na minha garganta.

quinta-feira, maio 07, 2009

palavras soltas...


Troncos da mesma raiz,
Raiz entristecida.
Pós soltos, vidas desagarradas,
Pudesse eu dizer tudo o que me vai nas entranhas,
Numa só palavra
Gritar com ganas
Chorar com dentes cerrados
Raivas que não me libertam...

sexta-feira, abril 24, 2009

Então por que "céus" andas tu?


Nos da inquietude...
Céus turbulentos que põem em causa a existência, o saber e o que querer.
Acima de tudo o saber o que querem céus que te agitam, numa calmaria fingida...
Camadas de incerteza, que me envolvem o corpo, dores e mágoas arrastadas, sem ter arrastado ninguém.
Folhas caídas, algumas perdidas, cuspidas por ventos cruéis.
Céus que despem a alma, e nos deixam cair no constrangimento de alma a nu…
Pele transparente que mostra apenas o que se sabe, que pouco mais é que um nada infinito, perdido e descalço pelas estradas da beleza inexistente, mas tanto e tantas vezes perseguida.

domingo, abril 05, 2009

Sapatos vermelhos - A sua vida era pacata, aparentemente…


Deitado na areia, sentia a água salgada a secar na sua pele tostada pelo sol, estaladiça do sal…
Rapaz sociável, namorada perfeita, filho perfeito, aluno exímio. Estava a caminho da faculdade, com resultados reconhecidos a nível nacional. Falava-se de medicina, mas decidiu ir para advocacia, para poder ajudar os mais fracos, para fazer prevalecer a justiça, neste mundo tão caótico. Ninguém sabia que o seu motivo era outro, conhecer a lei até ao seu mais íntimo pormenor, para o caso de algum dia vir precisar.


Era um grande dia, recebera um carro, por ter sido sempre um “tão bom filho”.
Tinha planos... excelentes planos.


A sua namorada era perfeita, não tanto quando ele, mas para sua mercê, só podia ser a mais perfeita das redondezas, se bem que a voz era esganiçada e precisava de arranjar as unhas… Bom, mas como menina de boas famílias, era virtuosa, e em caso algum podia ser desflorada antes do casamento! Nem as brincadeiras típicas de uma adolescência saudável, que envolvem mãos de baixo da roupa e dedos no orifício sagrado, eram permitidas, e um corpo aos 18 pulula de hormonas, os odores, imagens, movimentos despertam o desejo. Tudo é motivo para o ter em riste, pronto para uma batalha de fervorosa paixão. Precisava de se aliviar com algo a sério, algi que não apenas a mão, ou os broches da namorada – sim, virtuosa, mas não santa - Precisava de enterrar a sua virilidade num estreito, quente e molhado túnel. Sentir um aconchego de entre pernas femininas, sentir o arfar no tímido ínicio e o gemer de um cavalgar desenfreado, precisava de foder! Decidiu pagar. E assim, com o pensamento em puro desejo, agarrou a namorada pela mão, tirou-a da praia, foram para o carro e ela lá o chupou, até o cálido e viril líquido lhe sujar o biquíni novo…


Noite serrada, vai sereno, mas não tranquilo… leva na alma a inquietude do desejo e o medo de ser apanhado. Poque levava o carro do pai, e para fins impuros! Estava taõ excitado que sentia a pressão da roupa sobre o seu pénis, gritante e desesperado…


Lá estava ela, quando menos esperava, onde menos esperava…. Uma felina impaciente, que andava de uma lado para o outro com ar de que, vai saltar em cima do primeio telhado e miar à lua. Leve, nuns saltos altos vermelhos, uma mini preta e um trapinho a segurar-lhe as mamas firmes, cabelo apanhado, era mais prático e mostrava o seu rosto redondo, de menina… chamou-a. Ela foi, balnçando as ancas como quem vai dançar uma milonga, inclina-se para dentro da janela semi-aberta, e vê aquele rosto tão jovem, num carro tão … familiar. Sorri.
- Olá…
- Quanto cobras?
- Depende, quem vai comandar?
Não tinha pensado nisso, segundos de hesitação…
- Tu, quero q sejas tu.
Sorriso rasga-se..
- Então dou-te um desconto…
- Entra.

Tive um pesadelo...


Que todos os meus sonhos se concretizavam!

quinta-feira, abril 02, 2009




Rasgo-te a roupa com um gesto, lambo-te a pele com sofreguidão, olho-te nos olhos enquanto desço devagar para o teu membro duro, sinto-te tremer com o toque da mão, e quando me sentes respirar por perto, a tua respiração suspende, e a expectativa aumenta… sei o que queres… queres que o meta na boca, e sem carinho, que te devore. Queres sentir a minha boca a sugar-te, enquanto danço com as minhas mãos em torno do resto do corpo que não me cabe na boca. Quero ouvir-te gemer… lambo-te da base à glande, faço-o deslizar devagar, até à garganta, tiro-o mais decvagar, abano-o contra a minha língua e termino a rodopiar na glande, só com a ponta.
Quero ouvir-te… agarro-te os colhões, com uma das mãos e não aguentas mais, pões a mão na minha cabeça, para comandar o ritmo, mas sabes que não tens permissão para me tocar, quem manda sou eu. Mordo-te e logo percebes.
Desesperas… porque ainda não está na hora de te vires….

É tédio...


A paixão da alma já se foi, a pele gelou com uma lágrima que se libertou das amarras da dor, e acabou esquecida.

Trago febre de carne despida, fome de luta vencida, saudade de luz que vejo de olhos fechados, cabeças amansadas pela mão da besta amestrada.
Que me corroa a acidez do ser e que no céu penda o meu corpo, numa brisa. Os olhos que deixam de se ver, as mãos que não se tocam, as bocas que já não falam.

Nada mais tenho para te deixar, ou dar, sou puta e o teu sangue vou sugar, até à última gota, para poder saciar a minha vontade, porque por mais entediada que esteja, adoro foder.

Conversas tidas, mantidas, ilusórias, e futuras



Tenho perdido estribeiras e noções de limites.
Continuo a acreditar que a melhor forma de nos encontrarmos é voltar a conhecer-nos... ando com ansiedades tais que o peito palpita na garganta e sinto o estômago constantemente inquieto, rasgam-me as entranhas, sinto as garras da frenética incerteza, de um ser escondido, mas nunca calado...
Ando com ganas, com ganas.... louca de ganas!
Mas ainda não percebi se de mim, se do mundo, ou se de nada.

terça-feira, março 10, 2009

A dança de um momento em nada infinito





Arrasta as mãos pela minha pele, traz a indolência nas mãos, não tenhas pressa, faz-me gemer. Deixa a tua pele derreter na minha pele, pousa aos teus lábios sedentos na ponta dos meus dedos, leva-me ao arrepio e ao suave contorcer de quem está prestes a suplicar por mais.
Agita-me os sentidos com o teu cheiro, eleva-me com a tua boca até ao plano do ser imortal e do orgasmo permanentemente suspenso. Sente o fervilhar do meu sangue, aproxima o teu ouvido da minha boca, para que oiças o meu ofegante tesão.
Não descures de um único milímetro da minha pele, é sede que sinto, e vontade que tenho, quero-te agora, deixa-me provar-te, até à última gota de suor fino, reticente.
Sinto-te tremer, sinto-nos tremer. Ácido da doce essência que levas À boca, com sofreguidão e carinho.
Deita o teu corpo no meu, apenas por agora, desliza a tua pele na minha, deixa o teu cheiro no meu.
Deixa as mãos dançarem neste infinito prazer, nesta deliciosa valsa de desejo e dança de fogo.

Inquebrável?

Caíram as asas,
caiu a ave…

Sentada no chão,
sinto-me em pedaços,
Procuro a massa da vida,
E só encontro o sangue para beber.

A escada antes,
hoje a queda.

Que se quebrem as asas,
que desabem os céus!


Enrolo-me na frenética essência que me atormenta,
esta que não se cala e apenas me deixa no chão…

são sons,
são sabores...

Vidas antes, vida agora.
Que sentir é este sentir?
Que travo é este na boca?
viúva de brilho nos olhos,
paixão apagada,
vontade de voar…

Destinos ausentes,
apenas na mente.

Coração aperto,
aperto de mãos ansiosas
contra um peito angustiado

Esfrego as pestanas com a vontade de saber,
a pele estalou,
seca…

Seca de vontade,
cheia de frustração
Mas apenas cai no chão e parti

quinta-feira, março 05, 2009

Mente que mente, corpo que sente


Laços perdidos, agora achados, feridas lambidas, ainda não saradas, necessidades constantes, mas não saciadas… febre, é febre que me consome, a febre de uma cura que não existe, de uma perda eminente, de uma escolha, de uma início, de um estágio… o meu corpo contorce-se, a minha mente debate, caio no chão, e ali fico inerte.

É a minha escolha, é o sabor da lágrima enferrujada.

quarta-feira, março 04, 2009

Apenas, que se dane! Anda.





Estou cansada de deambular neste mundo

Onde estás? Onde foste parar?


Sorriso caído para debaixo de uma pedra, escondido e tímido.

Com medo de se mostrar, de viver…

Cuspido no chão com desdém, procura com sofreguidão o pedaço de chão desaparecido.



Fuga num espaço não físico, procuro de um pedaço de matéria

Fogo desesperado, loucura desenfreada.

vazio que me acompanha

lógica sem rumo

É dor? É fome…

Que a luz fere os olhos.

Eles não me conhecem.

Havia nos teus olhos luz, na tua mente ideias, haviam…

Sinto asco pelo mundo… sinto amor pelo mundo… sinto dó, muito dó pelo mundo


Cobra que se enrosca na minha pele, que me devora as entranhas…


Traz-me a manta, que afinal é frio deste espaço, deste mundo.


Anda, não olhes para trás, o que há a fazer é lá à frente

sexta-feira, outubro 31, 2008

A dança que ninguém vê


Corro livre pelas planícies e montanhas, sinto a dor lancinante, cuspo o coração para a palma da mão e contemplo-o a bater feroz, com traços reluzentes, com sangue escorrido. Por baixo dos meus pés sinto a dança cardíaca da terra, vai ao mesmo compasso do músculo que seguro nas mãos, parecem trautear as alegrias que um dia viveram juntos, como se estivesse sido criados lado a lado. Sinto um misto de agonia, vómito, dor e fascínio, no céu-da-boca a pastosa saliva não me deixa engolir o amargo da vida, o esplendor da visão.

Sinto dentro de mim o ritmo constante desta sintonia, tão belo, tão musical, tão único e um dia meu...


Hipnotiza-me a cor, contínuo a contemplar o seu brilho cobre, fico ofegante, sinto as pernas a cederem à gravidade, e a cabeça a rodar, caio de joelhos e decido junta-los, Abro um buraco com uma mão, e deixo-o cair, resistente, no chão.

À terra o que é da terra, o belo o que é do belo, à musica o que é da música.


Agora juntos vão continuar a cantar, a dançar aquela dança que só eles conhecem, pois que continuem a cantar juntos, que comprimam o compasso e o libertem ao mesmo tempo, que se unam numa eternidade irreal...


Falta-me o ar… ergo-me e sigo cambaleante, com sangue e terra nas mãos, sinto a angustia de não o ter.

Já não choro, acabei de enterrar o meu coração.

sábado, outubro 04, 2008


A destreza de uma mão, encontra-se na leveza do ar que se consegue levar dentro. É Duvida a que me carrega a mente, e a mente que me carrega na existência.
É água o que tenho para crescer, e a pedra do rio para contornar, levo no bolso o mapa que não vejo e o livro que nunca vou ler.
Sou apenas uma carruagem bamboleante, num caminho que não é de ferro e uma alma que não vê além da sombra.

quarta-feira, setembro 24, 2008

A vontade pode tudo...


Levo na pele aquela vontade de ter o que não me é permitido, escondo do mundo a mente sórdida que me acompanha, e com os pudores naturais, a minha alma retrai-se de vergonha, e recolho na minha mente as palavras nunca mais permitidas, e as ganas de mais não ser.
Deito a cabeça numa almofada que me atormenta, por tudo saber.
São duras as penas de quem vê além dos olhos, e que sente além do natural, as angústias de não ter emoções cicatrizadas, como a terra tem as árvores enraizadas... a febre que me atormenta, com a temperatura gélida da racionalidade, mundo perdido, mente líquida, vontade sólida.
Coisa assim, de alma descontente, caminho torto e de tudo o que acontece, mas não podia ter acontecido. Procuro a montanha mais alta, para poder escalar e poder assim, atribuir o meu cansaço ao lógico esforço do corpo, e a alma continua a agitar-se, cheia de vontades inusitadas de romper as finas, mas sólidas, barreiras do racional.
Este vazio impreciso, este excesso de ar, para respirar e esta vida a mais para ter. A vontade de nada mais querer, além do que não se pode querer.
Vento que me trazes a razão, perde-te por favor, deixa-me nesta insana vivência, com um mar que nunca será mais pequeno que a minha mão, que me deixa ficar, que me pede para ir e que me leva sem permissão.
Quero rebentar nas ondas deste mar, nas várias orlas deste mundo, quero deitar-me em areias várias e colar ao céu da minha boca, como pequenos rótulos, as emoções; o ódio, a loucura, a angústia ou amargura, a doçura, a indiferença, a pastosa preguiça, a paixão-mãe, o amor platónico, a tristeza, a vaidade, a solidão...
Terei espaço em mim para todas, pequenas e grandes.
Tenho a vontade de sentir.
Continuo a ter a vontade de ter o que não posso querer…

terça-feira, setembro 23, 2008

Aquela, outrora, doçura


A incessante loucura
Bate no fundo da
mente
E procura romper
com a crença
E o que crê ser importante.

É sandice, parar ou andar,
Olhar e
viver, simplesmente...
Ignorar?...

Bate-me a indecisão vendada de loucura e a
demência cola-se à pele,
Como vírus à célula
Trago o e
xaurido corpo a passear à rua,
Agastado, perdido...

Com ganas de gemer as torturas da alma,
Mas a força não me chega…

sexta-feira, setembro 05, 2008


Sobra espaço, a estranha sensação de espaço vazio…

Sobra espaço entre estar, querer, ficar, ter, partir, sentir, calar, viver…

Entre as paredes que sabem tudo,

Entre a pele e o corpo,

Entre o sorriso e a lágrima,

Entre a existência e o ser,

Entre a luz e a sombra,

Entre a castanha e a neve,

Entre a tortura e a doçura,

Entre a demora e a caminhada,

Entre a chegada e o nunca mais,

Entre a dúvida e o amor,

Entre o carinho e a estrada,

Entre o arrepio e o cheiro,

Entre o fogo e o fogo,

Entre a alma e a existência,

Entre o beijo delirante e a verdade,

Entre a sinceridade e a vontade,

Entre o soluço e o choro,

Entre o muito e o tanto,

Entre a esteira da vida e a vontade de viver,

Entre a colina e o lado errado,

Entre a melodia e a voz rouca.

Entre a gargalhada e a orelha,

Entre a espada e a parede,

Entre mim e a roupa que visto…

É gelo o que me vai na alma...


E queima com a crueldade do abandono, sinto o corpo triste e a chama da vida abandonou-me, fugiu pela janela aberta, com medo de ser exaurida pelo bafo gelado que me cedeste num copo de pé alto, com requinte camuflado; bebi-lhe a angústia interior, sem perceber que estava a morrer ao segundo.

Nada é perdido, apenas vivido… sentido com as penas de criança e as angústias de adulto.

Quero apenas ceder o corpo à tormenta e entregar a alma à liberdade, que venham os cavaleiros da noite, caminhantes em pés descalços, mostrar-me o caminho da perdição, o que não tem retorno, o que simplesmente me leva para a podridão do mundo.

Quero sentir o que nunca senti, quero sentir a dor, desgarrar a carne da existência e perder-me em mares de sangue, quero que me doa até à última gota de sangue vertida.

Que venham as brumas, as catástrofes e as bruxas, em vassouras! Que se assanhem os gatos pretos, no meu caminho e grasnem os corvos ao meu ouvido, que me partam os mil raios da conjuntura celeste, que me abram em fenda profunda e insana, por todo o meu corpo, de alto abaixo, que se prendam pernas, mãos e que as ideias se encham de lodo, e que a língua não ande, nem mexa, simplesmente quede a sentir o fel, que o peso da terra paire sobre mim, em ameaça e pressão... POIS que venham! Tudo e todos, com as fúrias de bestas mitológicas e medos urbanos, que tanto nos apoquentam no dia-a-dia!

Que desabe o mundo, e me cravem as águias esfomeadas,as suas garras na carne desprotegida, que me devorem os lobos na noite, que me deixem cair na água gelada!….

Quero pender a cabeça de cansaço, para o lado e saber que não voltará a doer tanto, nem nada poderá doer mais.

domingo, agosto 31, 2008

Sapatos vermelhos



A noite não estava a render nada, ela não percebia porque, ainda novata, naquelas andanças. Estava acompanhada de uma mais experiente, que a iniciava nesta vida a troco de nada, "porque sei o que é andar sozinha nestas ruas, à noite. Só há putas e mafiosos!... Deixa lá, não me deves nada, quem me dera que o tivessem feito por mim" concluía com um olhar amargo, que podia dizer muito mais, mas parecia não possuir palavras para descrever as suas vivências. Ou isso, ou sentimento de culpa…
- Deixa lá cachopa, com essa cara laroca, em menos de uma hora já te estão a chamar, mas atenção, sê prudente. Se vires que o gajo tem um olhar maníaco, tu vem-te embora!...
Estes alertas podiam parecer muito úteis, mas o que é certo é que não sabia o que era um ar maníaco. Tinha a inocência no corpo, como quem tem sangue; vendia o corpo, porque acabou fugida de um colégio interno, onde foi parar por ter sido apanhada com um cigarro na boca, no entanto o seu sentimento de culpa não lhe permitia a resignação para ficar trancada que nem uma marginal; uma noite, saltou da janela, simplesmente, enchendo-se de arranhões e sem olhar para trás, da família, nada podia saber, estava muito longe e só se lembra de ter andado muito. Passados dias de fome, frio e dormidas ao relento, foi parar a uma pequena cidade e aí foi amparada por uma puta samaritana...
- Anda lá boneca, nesta vida ninguém nos dá nada, temos que fazer por ela!
Apesar dos seus modos pouco carinhosos, era atenta às necessidades da pequena meretriz, deixou-a repousar durante muito tempo, alimentou-a e deu-lhe cama e roupas para o oficio.
- Elah! Se te serve a ti, quer dizer que a idade ainda não me apanhou! - Riu à gargalhada, mas percebendo que ria sozinha, acrescentou - Tenho cuidado com o que como... E protejo-me sempre.
Depois explicou-lhe como funcionavam as coisas, e a pequena puta apenas absorvia informação, falava pouco, mas lá acabou por explicar que nunca tinha estado com nenhum homem.
- A sério?! Então és um pequeno tesouro!... Vamos vender a tua virgindade! - Ao ver o ar desesperado da pequena puta, concluiu - Não te preocupes, não te vai servir para nada, e eu estou cá para te dar umas dicas, para não doer tanto. Anda daí.
E foram. Até um bordel, porque na rua os leilões são complicados... e mal pagos. No entanto ali, havia comissões para a casa, para a patroa e para a puta experiente, que levou a pequena puta. No fim, para a última sobrou apenas o tremor no corpo, de medo e horror, e as lágrimas derramadas. Então era isto o tal pecado, se doía, porque caíam nele?
Não houve tempo para respostas, na noite seguinte foi para a rua com a puta experiente, e começou a treinar a aliciação, insinuando as pernas compridas, desnudas, o traseiro redondo coberto com uma mini-saia descarada, e um decote profundo "porque um bom decote faz toda a diferença" dizia-lhe a puta experiente todas as noites. Começou a ter dinheiro, finalmente, e em breve partiria do cafofo da puta experiente, esse era o seu objectivo, como tal precisava de clientes, tivessem eles olhar maníaco, ou não, fosse o que isso fosse.
Estava impaciente, e mal habituada, pois de facto a pequena puta facturava bastante por noite, o seu ar inocente e jovem cativava muitos clientes.
Andava de um lado para o outro, num andar sólido, porém leve, nuns saltos altos vermelhos, uma mini preta e um trapinho a segurar-lhe as mamas firmes, cabelo apanhado, era mais prático e mostrava o seu rosto redondo, de menina, que tantos clientes chamava. Era um felino da noite.
- Não vale a pena desesperar... - Dizia a outra, fumando um cigarro...
Até que um carro se aproxima, um topo de gama, com vidros fumados, baixando um pouco o vidro da janela do pendura, chamou a felina, tocaram informação e ela entrou.
- Não te esqueças da protecção!
Gritou-lhe a puta experiente ao longe.
(Continua)